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Grupo Pão de Açúcar aponta ‘incerteza relevante’ sobre continuidade

O balanço financeiro de 2025 do Grupo Pão de Açúcar, dono de bandeiras tradicionais como Pão de Açúcar e Extra, trouxe à tona um alerta que, em linguagem contábil, soa técnico, mas que, traduzido, é inequívoco: há “incerteza relevante” quanto à capacidade de a companhia manter sua continuidade operacional nos moldes atuais. A expressão, inserida nas notas explicativas do resultado anual e reforçada em parecer da auditoria independente, não é um mero detalhe de rodapé. Ela significa, em termos práticos, que o conjunto das informações financeiras analisadas coloca em dúvida se o grupo, tal como hoje estruturado, conseguirá honrar compromissos e seguir operando normalmente sem mudanças significativas em sua estrutura de dívida, liquidez e custos.

O ponto de partida desse alerta está na situação de liquidez ao fim de 2025. Segundo as demonstrações financeiras, o GPA encerrou o ano com capital circulante líquido negativo de aproximadamente R$ 1,22 bilhão. Em termos simples, isso significa que os passivos de curto prazo – contas a pagar, empréstimos, debêntures e outras obrigações vencendo em até 12 meses – superam os ativos realizáveis no mesmo período, como caixa, estoques e valores a receber. Essa fotografia se torna ainda mais preocupante quando se observa a concentração de dívidas: somente em 2026, a companhia terá de enfrentar o vencimento de cerca de R$ 1,7 bilhão em empréstimos e debêntures, montante que, à luz do caixa atual e da geração de recursos, não pode ser quitado sem renegociação, novos financiamentos ou venda de ativos.

A Deloitte, responsável pela auditoria das demonstrações, foi explícita ao fundamentar a ressalva. Em seu parecer, a firma destaca que, “apesar de melhora nos principais indicadores operacionais, bem como geração positiva recorrente de caixa operacional, a companhia continua apurando prejuízo no período”, e que as condições descritas “indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”. Em linguagem técnica, trata‑se de um alerta de going concern, expressão usada internacionalmente quando há dúvidas sobre a capacidade de uma empresa seguir em operação pelos próximos 12 meses sem reestruturações profundas.

Os números ajudam a entender a tensão entre melhora operacional e fragilidade financeira. No quarto trimestre de 2025, o GPA registrou prejuízo líquido de R$ 572 milhões nas operações continuadas, resultado pior que o esperado pelo mercado, embora menor que o prejuízo de R$ 737 milhões do mesmo período de 2024. No acumulado do ano, a perda foi de R$ 651 milhões, o que representa uma redução de cerca de 61% em relação ao exercício anterior, indicando um processo de ajuste em curso. Pelo fluxo de caixa, a fotografia é menos sombria: a geração operacional foi positiva, em torno de R$ 669 milhões ao longo de 2025, mais que o dobro do registrado em 2024, reflexo de ganhos de eficiência e melhoria de margens.

O problema é que esse fôlego operacional está sendo praticamente engolido pelo custo da dívida. As despesas financeiras líquidas alcançaram cerca de R$ 920 milhões em 2025, valor aproximadamente R$ 325 milhões superior ao do ano anterior, comprometendo o ganho obtido com a operação. Em termos de caixa, é como se a empresa conseguisse respirar melhor no dia a dia, mas estivesse correndo de encontro a uma parede de juros e amortizações no curto prazo. Não por acaso, casas de análise como a XP Investimentos observaram que o grande gargalo do grupo, hoje, não é mais a incapacidade de gerar caixa antes dos juros, mas a dificuldade de manter resultado positivo depois de pagar o custo financeiro de um endividamento elevado e concentrado.

Diante desse quadro, a administração do GPA procurou, no próprio balanço, sinalizar um plano de ação. Em comunicado aos investidores, a companhia afirma estar adotando um “conjunto de iniciativas” que incluem negociações para alongar prazos de dívidas financeiras, reduzir o custo médio dessa dívida, cortar despesas e monetizar créditos tributários acumulados. Entre as medidas já anunciadas em trimestres anteriores, estão um plano de eficiência para 2026, que prevê reduzir investimentos – o capex anual deve cair de cerca de R$ 693 milhões para algo entre R$ 300 milhões e R$ 350 milhões – e cortar pelo menos R$ 415 milhões em despesas, com eliminação de gastos com pessoal, suporte à operação de lojas e estrutura administrativa.

A companhia também menciona um programa de venda de ativos não estratégicos, com a expectativa de usar os recursos para abater parte da dívida bruta, bem como a possibilidade de renegociar contingências fiscais que somam até R$ 15 bilhões, aproveitando créditos tributários de cerca de R$ 2,4 bilhões, dos quais R$ 374 milhões já teriam sido usados em acordos com o governo federal nos últimos 12 meses. No entanto, o próprio texto das demonstrações financeiras adota tom de cautela ao admitir que, até o momento, não há contratos firmados que garantam a execução dessas medidas, nem acordos formalizados para a venda de créditos ou reestruturação dos passivos. Além disso, a empresa reconhece que os termos de eventuais negociações não dependem apenas dela, mas também da disposição de credores e das condições de mercado, o que adiciona um componente de incerteza ao plano.

O alerta sobre a continuidade operacional ocorre em um contexto de mercado desafiador para o varejo alimentar. No relatório, o GPA destaca que a dinâmica do setor em 2025 foi marcada por demanda enfraquecida e inflação de alimentos mais contida em diversas categorias, o que limita a capacidade de repasse de preços e pressiona as vendas em mesmas lojas. A empresa vem passando por um processo de simplificação de estrutura e descontinuidade de planos de expansão, com fechamento de unidades menos rentáveis e revisão de sortimento, o que inclui, inclusive, a demissão de cerca de 700 funcionários na segunda etapa de reorganização administrativa concluída no terceiro trimestre de 2025.

Para investidores, o fato de o risco de continuidade ter saído do campo implícito e passado a constar formalmente das notas explicativas é um divisor de águas. Relatórios de análise ressaltam que a inclusão de um parágrafo específico sobre going concern sinaliza que a própria empresa e sua auditoria reconhecem que o equilíbrio financeiro futuro depende de variáveis ainda não controladas, como o sucesso de renegociações de dívida e o ritmo de recuperação da margem operacional. Em termos de governança, essa transparência é vista como positiva; em termos de percepção de risco, contudo, tende a aumentar a cautela de credores e investidores, com reflexos sobre custo de financiamento e comportamento das ações em bolsa.

No plano mais amplo, o caso do Grupo Pão de Açúcar ilustra o desafio de grandes redes varejistas em um ambiente de juros altos, consumo moderado e competição intensa. A empresa conseguiu, ao longo de 2025, mostrar avanços em eficiência interna e redução de prejuízos, mas ainda não resolveu o ponto nevrálgico de sua equação: a relação entre geração de caixa e peso da dívida no curto prazo. A “incerteza relevante” registrada no balanço é, nesse sentido, menos uma sentença e mais um aviso: sem reestruturações bem‑sucedidas e sem uma melhora consistente do ambiente de negócios, o esforço para manter de pé uma das marcas mais tradicionais do varejo brasileiro seguirá sob tensão.

Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

GCM promove curso de Letramento Racial para seus agentes em SP

A formatura da primeira turma da Guarda Civil Metropolitana no curso de Letramento Racial, desenvolvido em parceria com a Universidade Zumbi dos Palmares, marca um momento simbólico na trajetória da segurança urbana em São Paulo. Não se trata apenas de mais um certificado pendurado na parede da Academia da GCM, mas de um passo concreto na direção de uma cultura institucional que reconhece o racismo estrutural como problema público e se dispõe a enfrentá‑lo por meio da formação permanente de seus agentes.

O programa nasceu de um convênio firmado entre a Secretaria Municipal de Segurança Urbana e a Universidade Zumbi dos Palmares, instituição de ensino superior referência na promoção da igualdade racial e na formação de quadros negros no país. Em maio de 2023, a prefeitura anunciou o início do Treinamento de Letramento Racial voltado à GCM, com abertura oficial no campus da universidade e aulas presenciais e on‑line pela plataforma Zumbi Digital. A previsão era capacitar, inicialmente, 300 guardas civis, em um curso de 20 horas distribuídas em oito módulos gravados, integrando a grade obrigatória de qualificação da corporação. A turma que agora conclui o percurso é a primeira a atravessar integralmente esse itinerário formativo, transformando a parceria em realidade concreta no cotidiano da guarda.

O conteúdo do curso foi desenhado para ir além de uma sensibilização superficial. De acordo com a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, a formação aborda fundamentos constitucionais, legislação antirracista, viés racial em abordagens policiais, comunicação não violenta e promoção da equidade racial no serviço público. A coordenação ficou a cargo da professora Mara Dubugras, pesquisadora da área de relações raciais, e do advogado Ricardo Brito, idealizador do Procon Racial, iniciativa voltada à proteção de consumidores vítimas de discriminação. A proposta pedagógica, alinhada a outros programas de letramento racial desenvolvidos no setor público, busca combinar base teórica sólida com situações práticas, estudos de caso e exercícios de reflexão sobre o cotidiano da atuação policial em uma cidade atravessada por desigualdades raciais.

Na abertura da formação, o comandante da GCM, Jairo Chabaribery Filho, destacou que a iniciativa se insere na política de formação continuada da guarda e dialoga com o compromisso da gestão municipal de qualificar a segurança urbana sob parâmetros de direitos humanos e cidadania. Ao enfatizar que “investir em conhecimento é o caminho para construir uma cidade mais justa e segura para todos”, o comandante sinalizou que o curso não deveria ser visto como ação pontual, mas como parte de um esforço de modernização institucional.

Do lado da universidade, a mensagem seguiu a mesma direção. Para Mara Dubugras, o letramento racial precisa deixar de ser “ação pontual” e tornar‑se compromisso estruturante, obrigatório em instituições públicas e privadas. A Universidade Zumbi dos Palmares vem construindo, nos últimos anos, um portfólio robusto de ações nessa área, que inclui cursos de pós‑graduação em Letramento Racial, consultorias a órgãos como o Conselho Nacional de Justiça e parcerias voltadas à inclusão de negros e indígenas na magistratura. Esse acúmulo de expertise foi colocado a serviço da GCM, com a ambição declarada de transformar não apenas o discurso, mas também as práticas cotidianas de agentes que lidam, na linha de frente, com populações majoritariamente negras das periferias paulistanas.

O conceito de letramento racial, embora relativamente recente no vocabulário das políticas públicas, já se consolidou como ferramenta central para enfrentar o racismo em instituições. Em linhas gerais, trata‑se de um processo de aprendizagem contínua que permite reconhecer, nomear e analisar criticamente as diferentes formas de racismo – individual, institucional e estrutural – e de pensar estratégias concretas para desmontar práticas discriminatórias. No setor público brasileiro, cursos de letramento racial têm sido adotados por Ministérios Públicos, tribunais, escolas de governo e órgãos de segurança como instrumento de revisão de protocolos, redefinição de rotinas e reeducação de olhares.

No caso específico da GCM, o recorte é particularmente sensível. Pesquisas acadêmicas e relatórios de entidades de direitos humanos vêm registrando, há décadas, a exposição de jovens negros como alvo de abordagens policiais, revistas e detenções, tanto em São Paulo quanto em outras capitais brasileiras. Ao incorporar uma formação que explicita o viés racial e discute, de forma direta, como estereótipos e preconceitos interferem na tomada de decisão em situações de rua, a guarda sinaliza disposição de confrontar uma ferida histórica. A aposta é que, ao compreender melhor conceitos como racialização, privilégio, discriminação e violência simbólica, o agente esteja melhor equipado para agir com empatia, responsabilidade e rigor técnico, reduzindo o risco de condutas que reforcem injustiças.

A conclusão da primeira turma ganha relevo também pelo momento institucional da própria Universidade Zumbi dos Palmares. Em 2024, a instituição celebrou 20 anos de atuação e firmou acordos com o CNJ e a Fundação Getulio Vargas para desenvolver políticas de inclusão racial no sistema de justiça, reforçando seu papel como polo de produção de conhecimento e formulação de políticas antirracistas. A parceria com a GCM, nesse contexto, é mais uma peça de um mosaico que articula academia, poder público e sociedade civil em torno da agenda de igualdade racial.

A formatura da turma não encerra o ciclo. O convênio firmado entre a prefeitura e a universidade prevê novas ações, como treinamentos específicos em identificação e combate ao assédio moral e sexual para gestores da GCM e a criação de um Núcleo de Estudos Estratégicos de Segurança Urbana dentro da própria Zumbi dos Palmares. Em novembro, a universidade programou um treinamento voltado a 52 gestores da guarda, com encerramento na Academia da GCM e assinatura de um protocolo de compromisso para implementação das novas diretrizes, coordenado por professores da instituição.

Para os guardas que recebem agora seus certificados, o curso de letramento racial representa tanto um ponto de chegada quanto um ponto de partida. Nas falas recolhidas ao longo da formação, muitos relataram que, ao revisitarem a história do povo negro no Brasil, os dados sobre desigualdade e os conceitos de racismo institucional, começaram a enxergar sob nova luz situações corriqueiras de trabalho, da abordagem em praças e terminais ao atendimento em escolas e equipamentos públicos. A provocação central do curso foi justamente essa: deslocar o olhar, desnaturalizar padrões de suspeita, rever a forma de exercer a autoridade.

Em uma cidade que leva o nome de São Paulo, mas se reconhece cada vez mais como herdeira de Zumbi e Dandara dos Palmares, a cena de uma primeira turma de guardas civis metropolitanos concluindo um curso de letramento racial em uma universidade voltada à valorização da população negra tem um valor que ultrapassa o simbólico. Ela aponta para a possibilidade de uma segurança urbana que se reconhece como parte do problema e, por isso mesmo, se dispõe a ser parte da solução. Se esse movimento ganhar escala, com novas turmas, avaliações constantes e mudanças concretas na rua, a parceria entre GCM e Universidade Zumbi dos Palmares poderá ser lembrada, no futuro, como um daqueles pequenos marcos que ajudam a deslocar, lentamente, o eixo de uma cidade em direção a relações mais justas entre quem protege e quem é protegido.

Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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